Hábitos de uma pessoa de sucesso

Rodrigo G. Gomes

A vida de uma pessoa “de negócios” tem sido definida pelo fato e pela gravata, pela camisa branca, e pela quase perfeita e bonita aparência. E tem sido definida desta forma mais do que definida pelo trabalho, esforço e dedicação de alguém que quer criar um “negócio” ou, como eu prefiro dizer, um projeto.

Para me ajudar com os meus projetos, decidi começar a trabalhar como consultor imobiliário onde podia desenvolver o meu conhecimento e a minha competência no que diz respeito a vendas, mas também no que diz respeito a comunicação, lidar com outras pessoas e à minha (in)capacidade de me expor enquanto introvertido. Sair, completamente, da minha zona de conforto.

E eu, como toda a gente, quando estou com clientes pessoalmente ou quando estou em algum tipo de reunião virtual, visto um personagem. Visto a pele de alguém que se afasta de quem eu sou, enquanto continuo a ser quem eu sou, de forma a, suponho eu, conseguir ter mais um elemento a favorecer-me aos olhos de quem me vê.

Ou seja, eu estou, essencialmente, a implorar, ainda que de forma implícita, por aprovação. Não é o meu trabalho que cria o meu retorno financeiro, mas a aprovação dos clientes que me permite sequer começar a trabalhar.

Nas reuniões virtuais, então, estou lá mais pela presença e pela sensação de produtividade do que pela produtividade de estar presente. Não é produtivo. Não é produtivo para ninguém. Mas, todos ali vestimos a pele de alguém que se afasta de quem somos, enquanto continuamos a ser quem somos, de forma a, suponho eu, conseguirmos ter mais um elemento a favorecer-nos aos olhos de quem vê.

Recentemente, vi um anúncio de uma empresa que oferece serviços de reuniões remotas em videochamada que não passava de uma piada com a qual toda a gente parece conseguir identificar-se. Além do logótipo da empresa, no anúncio, estava um homem com o tronco vestido de camisa, casaco de fato e gravata, enquanto estava só de roupa interior da cintura para baixo.

Então, toda a gente sabe que estamos só a vestir o personagem ao ponto de ser uma piada. É engraçado, porque eu sei que estou só vestido da cintura para cima enquanto estou em videochamada numa reunião muito importante. Eu sei, os colegas sabem, o orador sabe, toda a gente sabe. E, talvez, também eles estão assim. E é engraçado porque toda a gente sabe. Até os clientes sabem, e aparentemente preferem que assim seja.

Nós preferimos viver numa versão falsa da realidade, porque, suponho eu, essa versão é menos confusa (e ninguém gosta de se sentir ignorante). Mas conforto não define o melhor caminho. Subjetividade, por definição, não é objetividade. Uma mentira, por definição, não é verdade.

Se precisamos da verdade para alcançar sucesso, podemos mentir a vida toda sem alcançar sucesso nenhum, e não é por fingirmos que estamos a ser verdadeiros que isso muda.

Ou seja, todos nós temos consciência do facto de que criámos e mantemos, diante dos nossos olhos, uma realidade falsa cada vez que temos de ser “profissionais”. Nós estamos conscientes disso. Nós, conscientemente, vestimos a pele da pessoa “de negócios” mais do que somos uma pessoa que cria projetos e que vive, realmente, essa realidade.

As pessoas que realmente mudam o mundo, as pessoas que realmente criam algo de valor, as pessoas que trabalham e desenvolvem verdadeiros projetos, são as pessoas que menos querem ser vistas como pessoas “de negócios”.

Quem está entusiasmado para vestir o personagem, valoriza apenas o personagem. Valoriza mais o que parece ser do que aquilo que é. É por isso que os pobres vestem roupas de marca, e os ricos vestem roupas simples: quem alcança esse estatuto preocupa-se mais com a sua missão do que com a ideia de mostrar ao mundo que sequer tem uma missão.

O personagem ganha aprovação, admiração e validação a curto prazo, talvez até algum retorno financeiro, mas o verdadeiro criador de valor é quem vive para sempre através das suas criações e do valor que deixou ao mundo.

É pouco produtivo deixarmos que a falsa realidade de produtividade prejudique o nosso progresso enquanto massaja o nosso ego. O valor está, verdadeiramente, no trabalho, na missão, no propósito e no resultado da criação.