Ser autor e leitor em Portugal em 2026

Ser autor e leitor em Portugal em 2026

Rodrigo G. Gomes

Não são todos os leitores que escrevem, mas todos os autores também leem. O que é importante de lembrar é que autores e leitores fazem parte da mesma equipa, nós não estamos em confronto nem são os preços das livrarias que vão estabelecer o contrário como facto. Está claro que os lucros são a prioridade da maioria das livrarias e editoras, mas o que elas têm tendência de ignorar é que, sem autores, as mesmas não teriam lugar no mundo. Cabe a nós, autores, lembrar essas entidades disso.

Um autor importa-se com um leitor, porque o livro que é lançado, é lançado para ser lido. Eu, enquanto autor, podia deixar os meus poemas e textos numa pasta privada que só eu tenho acesso, mas eu quero que o meu trabalho seja lido. Eu quero entregar esse trabalho ao mundo, bem ou mal, sendo útil para alguém ou passando despercebido, os meus livros são lançados por um motivo.

Exatamente da mesma forma que os leitores leem livros por um motivo. Talvez para aprender algo novo, processar emoções, conhecer outras experiências ou perspetivas de vida ou simplesmente desfrutar de uma história bem contada. É uma arte que faz parte de nós, e está provado que gente que lê é mais inteligente e gente que escreve parece encontrar um certo equilíbrio interno necessário.

O que os leitores não parecem entender é que os preços não dependem de uma simples escolha do autor. São estabelecidos pelas editoras tendo em conta o custo de produção de cada exemplar.

Um exemplo: reparei numa leitora que expressava frustração, algures no mundo virtual das redes sociais, quanto ao preço dos livros. Dizia que 20€ por um livro é demasiado caro. Isto é da perspetiva de uma leitora que vai a uma livraria comprar um livro, mas da perspetiva de um autor, o que acontece é que desses 20€: 10€ vão para a livraria, 10€ vão para a editora e 10% desses 10€ vão para o autor.

O que acontece é que eu, enquanto autor, não pago por um exemplar quando quero publicar um livro. Eu pago por dezenas de exemplares que, ao todo, têm um custo de mais de 500€. Esse é o custo de publicar um livro, na minha experiência. A lógica, aparentemente, é: eu (pre)ocupo-me com a despesa enquanto as livrarias e editoras ficam a maioria dos lucros. O que torna livros caros não é a produção dos livros em si, o que torna os livros caros é toda a gente que está entre os autores e os leitores. Autores são, essencialmente, escravos.

O que me surpreende é que a maioria dos leitores não faz a menor ideia desta realidade, e acredito genuinamente que é através da transparência entre autores e leitores que criamos o poder para colocar as livrarias e editoras no seu lugar.

É natural que se diga que um autor não consegue viver da escrita, ou pelo menos é natural que um autor pouco competente queira convencer-se de que a falta de sucesso não é culpa sua. Convencer-se de que não há nada que se possa fazer.

E, para deixar claro, o adversário da equipa dos autores e leitores não são as livrarias e editoras: o adversário é a dependência de livrarias e editoras. Se o objetivo é devolver poder e valor aos autores que, por sua vez, entregam valor e poder aos seus leitores, então o objetivo é remover a necessidade de controlo sob o qual os autores existem.

Sim, existem formas, especialmente com os avanços do mundo virtual e financeiro. Sim, um autor consegue viver do seu trabalho. É só que, agora, um autor precisa de ser capaz de fazer mais além de escrever. Estou a trabalhar para passar a todos o conhecimento que estou ativamente a desenvolver.

Para já, é importante demonstrar apoio aos nossos autores favoritos, especialmente os portugueses, incentivando-os também a criar uma plataforma própria para que não dependam inteiramente de livrarias e editoras. Desta forma, começam todos já a preparar-se. As livrarias podem continuar a trazer boas influências de fora de Portugal, mas aqui vamos nós mesmos fazer o nosso trabalho. Editoras vão trabalhar para nós, nós não vamos trabalhar para editoras.

Páginas dedicadas a livros nas redes sociais não vão ganhar exemplares de graça sem entregar o valor apropriado aos autores, também essas vão trabalhar para nós, não vamos nós trabalhar para que fiquem elas a ganhar com toda a atenção e com livros grátis (e com pouco ou nenhum retorno para os autores que têm todo o trabalho e investimento) enquanto leitores pagam 20€ por exemplar.

Antigamente, “autor” era título de génios, gente inteligente com valor para entregar ao mundo. Agora, qualquer idiota consegue ser autor, desde que venda. "Autor" costumava ser título de génio, e escrever era suficiente para partilhar ideias com o mundo. Agora, com todo o ruído, escrever não é suficiente, então um autor tem de se preparar além da escrita: ser igualmente competente a editar, rever, vender e gerir o negócio que é ser-se autor sem necessariamente precisar de ninguém pelo meio.

É isso que é ser autor atualmente. Nós estamos tão preocupados com as livrarias e editoras que a nossa relação com os leitores, o que realmente importa, mantém-se negligenciada.

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