LÁPIDE

LÁPIDE

Rodrigo G. Gomes

O meu primeiro livro. O resultado de uma busca, quase desesperada, por propósito do meu eu adolescente durante um período conturbado de transformação. Na altura, estava mais do que pronto para desistir da escola e seguir música, dedicar a minha vida à música, com toda a inspiração e motivação dos meus artistas favoritos. Tudo o que eu realmente queria era escrever e fazer música com e como todas as referências e inspirações que tinha. Essa ideia deu-me um motivo, acendeu algo dentro de mim que era ligeiramente menos sombrio.

Além de ter as aulas de guitarra, comecei a escrever, em inglês, o que seriam letras de músicas. Apesar de ainda gostar de escrever em inglês (porque gosto da língua e da forma como algumas ideias funcionam ou soam melhor nessa língua), escrever em português é o melhor que posso fazer. Simplesmente porque eu sou português. Eu gosto de conhecer e aprender outras línguas, gosto de inglês e de alemão, e posso sempre experimentar algo numa língua estrangeira por qualquer motivo, mas português é a minha língua. Considero interessante e até importante abraçar isso.

Não demorou muito até ouvir de alguém que eu precisaria de acabar o secundário para seguir música como queria. Hoje, tenho as minhas dúvidas disso, mas, na altura, isso desanimou-me imenso. Desanimou-me ao ponto de considerar desistir das aulas de guitarra. Entretanto, enquanto escrevia, percebi que dentro das minhas letras havia alguma poesia. Isso intrigou-me. A poesia dentro das minhas letras. A minha escrita não era muito boa, naturalmente, mas havia esse elemento que me deixou curioso. Decidi tentar escrever um poema, não uma letra, mas um poema. O resultado foi o que é agora o segundo poema da “LÁPIDE”. Eu gostei. Nisto, decidi tentar escrever um poema em português. O resultado foi o que é agora o primeiro poema da “LÁPIDE”. Eu gostei. Muito.

Era isso que eu queria, era isso que eu precisava e não sabia. Era isso que eu procurava na adolescência mesmo não tendo consciência disso. Eram as frases, os versos, ideias que exprimem emoções e pensamentos. Tudo o que eu queria, tudo o que eu sempre quis, era a capacidade de criar com base numa vontade insaciável de criar. Criar de uma forma que exemplificava a própria definição da palavra, da maneira mais pura, nua e crua. Eu simplesmente sentia estímulos ou impulsos frequentes que provocavam desejos intensos de criar, vontades intensas de ser criativo, e eu só não sabia explicar porquê de forma clara, como ou o quê.

Lembro-me de gostar de brincar com palavras e pensar em frases que eu acreditava que definiam quem eu era (ou, dito de forma mais realista, quem eu queria ou desejava ser). Eu lembro-me também de tentar escrever versos como se fossem versos de letras de música, eu ainda não via isso como letras, mas como algo que me permitia dizer ou sentir algo. Raiva, se não houvesse mais nada. Eram frases e palavras que eu podia juntar e construir para expressar algo. Eu gostava dessa ideia.

Apenas eu e um objetivo: sentir-me completo com arte e criatividade, e consciência e expressão do meu "eu". Foi aí, então, que comecei a escrever letras que seriam usadas em músicas e só depois veio a poesia. Tudo começou como um experimento por pura paixão pelo que estava a fazer, pela paixão de tentar, pela paixão de experimentar e explorar estímulos ou impulsos criativos.

Antes dos 17 anos, eu era só um pré-adolescente e adolescente que podia considerar-se normal ou que pelo menos tentava ser normal. Eu procurava e gostava de ser criativo de alguma forma, e gostava de jogar videojogos e conviver com amigos como qualquer outro. A escrita, para mim, foi algo novo que apareceu para ficar como um raro relacionamento que genuinamente deu, continua e continuará a dar certo. O gosto por construir frases juntando palavras com algum tipo de significado e que representam algo para mim de forma a expressar ideias que vêm de mim e quem “eu” sou.

Talvez, tudo o que eu sempre procurei de forma tão intensa foi liberdade. A capacidade de ser livre, a capacidade de me libertar (talvez de mim mesmo).

Poucas letras tornaram-se poemas (os poemas em inglês), e poucas outras letras foram adaptadas a poemas (reescrevi as letras em português, no fundo). Eu já tinha letras suficientes para um álbum e, de repente, dei por mim com quase uma dezena de poemas escritos. O que eu sabia era que queria mais. Continuei a escrever para ver até onde conseguia ir. Escrevi 10 poemas, 15 poemas, e nisto uma nova ideia começou a fazer-me sentido: eu vou escrever um livro.

Não se passavam três dias sem que eu escrevesse algo novo, e se se passassem quinze dias eu já começava a acreditar que tinha perdido a capacidade de escrever. Era sempre um pensamento depressivo. Eu só não queria parar. Agora, pode até passar-se um mês ou até dois meses, mas eu sei que eventualmente um poema vai sair de dentro de mim a ferver. Eu gostava de desligar as luzes para escrever. Os meus olhos focavam-se na luz do ecrã, o resto estava escuro e preto como se nem existisse. Ajudava com a imersão no que estava a fazer, a focar a minha cabeça naquilo e só naquilo. O ruído parava e só restavam palavras que me faziam sentido. Eu adorava escrever de madrugada, especialmente. Sentia-me como se só eu existisse no mundo, como se só existisse “eu” no mundo para conhecer.

A ideia de ter uma página em branco e a liberdade de criar, literalmente, qualquer coisa que eu seja capaz de imaginar, fascina-me. Uma página em branco serve como um espelho, um reflexo. Talvez da mesma forma que nós servimos de espelho uns para os outros. A ideia de expressar uma emoção através de palavras e da forma como as exprimo ou escrevo, a ideia de contar uma história e criar todo um outro e novo universo com o misterioso universo que já existe dentro do meu cérebro e da minha mente. E isso que é tão único para cada um de nós. E, assim, sentir que tenho poder e controlo sobre o meu mundo, e sentir que posso ser o líder da minha existência. É algo que vai além do que, muitas vezes, é sequer possível de explicar. Para mim, é e sempre foi uma forma de provar a mim mesmo que tenho valor. É uma busca por valor ser criativo e até conhecer-me ou entender-me através disso.

Aliás, veio daí o nome “sangue de líder” (adaptado para “sanguedelider” online). Veio da ideia de querer ser o líder da minha própria existência, o líder da minha vida. O que, no fundo, significa, suponho eu, ter sangue de líder.

Eu desisti da guitarra que ainda guardo com carinho. A minha motivação adaptou-se a essa nova realidade, a esse novo facto de que eu gostava de escrever até mais do que gostava de aprender guitarra.

Eu sabia que queria escrever vários livros, eu sabia que queria escrever uma trilogia. Eu não sabia bem o que estava a fazer, só sabia que queria escrever livros e fazer uma trilogia. Eu queria escrever sobre tudo e qualquer coisa com a excitação de descobrir algo novo que me preenche e que genuinamente amo. Escrever sobre tudo e tirar inspiração de tudo ao ponto de me fazer querer escrever sobre tudo, até sobre aquilo que não sabia (o que também abasteceu a pasta de arquivo).

Então, escrevi 100 poemas. E esses 100 poemas tornaram-se a minha querida “LÁPIDE”. Quando publiquei o livro, em setembro de 2020, já tinha começado a escrever o segundo. Aliás, eu já tinha começado a escrever o segundo livro ainda antes de perceber como é que se publicava um livro. Talvez até já fosse a meio dele. Eu não sabia para onde estava a ir, eu só sabia que estava a ir e que estava a gostar. Um poema atrás do outro, talvez até rápido demais. Eu estava, finalmente, a conseguir expressar-me. A poesia tornou-se uma forma de me conhecer, compreender, descobrir, explorar e de me encontrar. Uma forma de poder ser sincero até comigo mesmo. Uma forma de lidar com todo o ruído e todas as obsessões da minha cabeça.

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