A morte
Rodrigo G. GomesA morte assustava-me, agora é apenas algo que não me incomoda. Deixar de existir, existir ou não existir são apenas estados que sentimos somente enquanto neles estamos. Eu sei, penso e sinto que existo porque existo. Um dia, vou pura e simplesmente deixar de existir. E isso é tão simples quanto existir, a única diferença é o facto de que não existirei.
Poderia dar-me uma crise existencial ou sentir-me triste ou deprimido por isso como acontecia. Quando tinha mais ou menos 5 anos de idade, quando me deitava na cama para dormir, tinha tendência de ficar a pensar na morte. Era-me impossível entender o conceito da morte, a ideia de deixar de existir, a perceção oposta à perceção de estar vivo ou acordado.

Claro que a minha reflexão não era feita dessa forma, eu não tinha sequer capacidade de entender o conceito de conceito, mas ficava a tentar imaginar o que acontecia depois da morte. Será que fica tudo escuro como fica quando apago a luz? E isso significa que não vou voltar a ver os meus pais? Eu não acordo? Como assim?
Não sei o que é que me levava por esse caminho, acho que só tive a minha primeira experiência com a morte aproximadamente 1-2 anos depois disso, quando encontrei o meu avô materno morto na cama dele.
Mas a verdade é que tanto o conceito de existir como o conceito de não existir soa justo e natural. Não vou sentir dor quando já não existir, precisamente por já não existir. Não existe o meu eu que é capaz de sentir dor. Não existe sequer o conceito de sentir, nem o conceito de dor, nem o conceito de capacidade, nem o conceito de existência em si.
Eu só não existo.
O que consegue transmitir-me uma sensação de liberdade.
Não tenho motivo para me preocupar, se me preocupo é só porque existo. Quando deixar de existir, apenas deixarei de existir. Não sinto, não penso, não ouço, não cheiro, não vejo. Só. Viver é uma experiência destruída por ideias. E quem chora, existe. E só chora porque existe. Não choraria se não existisse, não haveriam lágrimas nem o conceito delas.
A inexistência não se experiencia, porque não existe. Não dá para beber a água que não está no copo. O cérebro perde a capacidade de perceção. O coração perde a capacidade de bater. Instintos deixam de nos servir. Um corpo é só um corpo. Carne, pele e ossos que são comestíveis e que se desfazem. Inexistência é apenas inexistência.
Não se explica, não existe. Deixarei de existir, um dia, e não terei forma de achar isso bom ou mau. Não existirei. E o que existe, continuará a existir se tiver de existir. É tão simples como fechar os olhos.
Não estarei lá, não serei, aos meus olhos e aos olhos dos outros. Não terei olhos. Não saberei o que é ter olhos, nem o que é o conceito de saber alguma coisa. Não haverá o branco nem o preto, nem o que isso é, apenas a inexistência de tudo isso. Só a constante e a infinita inexistência.
Um absoluto nada sem uma consciência capaz de o compreender, ou de sequer tentar compreender, incapaz de compreender sequer a compreensão em si.