Criar
Rodrigo G. GomesCriar é um processo em que nada parece estar certo até já estar feito, e até depois de estar feito. Olhando para as mais "perfeitas" obras de arte, é fácil acreditar que o que está feito é o resultado de uma ideia extremamente bem idealizada e decidida antes de sequer ter sido iniciada. Quando, na verdade, criar algo que é novo é quase como criar algo do nada, o que parece humanamente impossível, e nada passa realmente de um experimento.
O artista vai criando com base num ou mais conceitos e chega a um ponto em que dá por si a ter de se obrigar a parar, porque, caso contrário, a criação pode facilmente durar para sempre. O que pode tornar tudo um tormento é o facto de que tudo pode tanto estar "perfeito" como pode estar péssimo e a única forma de saber é ouvir o que a audiência tem a dizer.

Claro que um artista cria com base em si mesmo e não nos outros, ou pelo menos deve, mas existem sempre questões: será que estou a expressar isto bem? Será que podia estar melhor? Será que está confuso? Será que é realmente novo ou original? Será que estou a ser fiel a quem eu sou?
Há sempre inspiração que vem de algum lugar, mas o artista que vem para reinventar o mundo, vem sem esse compromisso e sem a mínima ideia do que está por vir ou do que está realmente a fazer. Limita-se a fazer o melhor que sabe, vindo de si, a mostrar ao mundo e a ver o que acontece. Primeiro a arte é criada, e só depois é estabelecida como lendária e uma fonte de inspiração. Algo que é original.
Nenhuma banda lança o primeiro álbum a pensar que vai reinventar um género até dar por si a reinventar a própria indústria. Primeiro a arte é criada e só depois é estabelecida como significativa. Até porque arte é subjetiva, o que é perfeito para mim, para ti pode ser péssimo.
Uma obra de arte não é algo que é feito para dar certo, é algo que dá certo porque foi feito.
Desenvolve-se, depois, a partir do que já está feito. E é normal que tudo pareça fazer pouco sentido, confuso ou incerto, mas isso é simplesmente por não haver comparação ao que está a ser feito porque fazer algo novo é fazer algo que, naturalmente, não tem comparação.