Envelhecer
Rodrigo G. GomesConsegue ser mais aterrorizante a ideia de envelhecer do que a ideia de morrer. Deixar de existir é simplesmente deixar de existir, não haverá mais qualquer emoção que torne o momento horrível. Não haverá um cérebro a tentar racionalizar o momento ou a tentar justificar o que é a inexistência.
Talvez, claro, eu esteja completamente errado. Talvez exista algo depois da morte, mas existir é existir até onde se sabe e deixar de existir é deixar de saber o que quer que seja.

Envelhecer, no entanto, é como um terrível acidente a acontecer "em câmara lenta". Não há muito que se possa fazer senão deixar o tempo passar (e o tempo passa de forma totalmente independente). O corpo envelhece e deixa de ser o que era: bonito, resistente, capaz. Marcas estranhas surgem na pele, o cabelo enfraquece e cai, e a pele parece roupa velha mal lavada.
E o pior de tudo é ver isso a acontecer em primeira pessoa, diante de um espelho. Enquanto os outros veem apenas um velho, nós mesmos vemos alguém que está cada vez mais próximo de deixar de ser e é humanamente impossível de fazer algo que evite isso. A pessoa jovem que um dia fomos e vimos diariamente no espelho, está a desfazer-se lentamente.
Restam apenas fotografias e memórias de uma altura que nunca mais volta.
Nós vemos a pessoa que um dia foi, a pessoa que agora é e o inevitável sofrimento de estar velho e quase morto. A vida passa e assim acontece com todos e até, com frustração e algum desespero, com aqueles que, no auge da sua existência, se sentem imortais.
O desgosto que também é representado pelos bons momentos da vida que parecem passar rápido demais e que, com mágoa, somos obrigados a deixar ir. E reflete-se também na tentativa desesperada e angustiante de querer esconder os sinais do tempo (talvez mais do reflexo do que dos outros que veem) e as marcas na pele do envelhecimento.
Talvez numa tentativa patética e quase compreensível de lutar contra o tempo e tentar evitar a inevitável morte quando já desenvolvemos tanta afeição pela vida.