Liberdade de expressão é uma ilusão...
Rodrigo G. GomesA liberdade de expressão é uma ilusão para todos os que se sentem incapazes de ir além do que já está a ser feito pela maioria. Sim, eu tenho a liberdade de expressar a ideia que quero da forma que quero, mas dentro dos parâmetros do que é “seguro” ou do que não corre o risco de manchar a imagem de uma marca que tenta chegar a “toda a gente”.
Nós temos um instinto que nos diz que seguir a multidão é mais seguro. É, no fundo, o nosso instinto de sobrevivência: quem fosse exilado da aldeia, era comido por lobos. Então, fazer parte do grupo era essencial, nem que isso significasse acreditar no mesmo que o grupo acreditava de forma forçada e desonesta. Era mais uma questão de vida ou morte do que uma questão de orgulho ou princípio.

Esse instinto sempre fez parte de nós, cresceu connosco e, como nós, não descobriu uma forma de evoluir do estatuto de primata que não seja fingir. É um instinto subconsciente, e é precisamente o que cria os próprios parâmetros. Então, se existem parâmetros, se existe um lugar “seguro”, existe realmente uma liberdade de expressão se, de forma instintiva, somos atraídos para dentro dos limites?
Se eu digo que podes entrar em minha casa, mas que, se entrares, corres perigo de vida: tu tens a liberdade de entrar em minha casa, mas sabes que, se entrares, corres perigo de vida. Porquê que haverias, então, de querer entrar?
Ir além dos limites é realmente desconfortável. Estar disposto a ir além dos limites é estar disposto a estar isolado, que é precisamente o que vai contra a minha natureza enquanto humano. Estar disposto a ir além dos limites é estar disposto, de forma intencional e consciente, a sentir esse desconforto de forma constante e interminável. É masoquismo.
Então, eu posso assumir que tenho liberdade de expressão, e ter essa liberdade, mas também posso escolher, instintivamente, deixar de explorar essa liberdade completamente. Posso escolher, de forma subconsciente, por existir uma “gravidade” interna que me puxa para baixo e para dentro dos mesmos limites.
Um pensamento, um desejo, uma ansiedade ou um medo que mal sabemos explicar é o que nos mantém dentro dos limites do que nos parece ser seguro (ou aceitável).
Eu reparo na forma como sou mais abordável se me vestir de branco. Reparo, também, na forma como sou menos abordável se me vestir de preto. E isto é, suponho eu, por causa das sensações que as cores transmitem ao nosso subconsciente: nós associamos o branco a leveza, pureza ou inocência. Associamos, no entanto, o preto a peso, opressão ou mistério (o que pode ser assustador para uma espécie assombrada pelo desconhecido).
Se eu quero ser abordado na rua, por algum motivo, é simples e objetivamente mais inteligente da minha parte vestir-me de branco. Eu tenho a liberdade de me vestir de preto, mas eu vou sofrer as consequências de não escolher o branco. Ou seja, terei eu realmente a liberdade de me vestir de preto?
Se eu quero ser a cara de alguma grande marca, por algum motivo, é objetivamente mais inteligente da minha parte manter-me dentro dos limites que mantemos do que é seguro e aceitável, os limites que mantemos baseados no que a multidão considera bonito ou engraçado.
Caso contrário, estou destinado a uma bolha.
E é compreensível: uma marca quer manter-se viva, quer manter-se produtiva e no caminho certo para crescer. Se o preto fosse a escolha da multidão, a marca seguiria o caminho seguro do preto em vez do branco.
E eu, aparentemente, sou masoquista. Eu gosto do desconforto, e escolho esse desconforto para que me sinta livre. Não me incomoda a ideia de estar destinado a uma bolha, desde que essa bolha faça a diferença e deixe uma marca no mundo.
Mas não deixa de ser notável, para alguém que valoriza liberdade, que o conceito de liberdade é tão inerentemente seletivo e controlado. Eu não sou livre se sinto necessidade de estar em constante controlo, e talvez por isso viva numa batalha contra mim mesmo, então talvez seja justo dizer que nós somos o nosso próprio problema.