Reflexão sobre inteligência artificial

Rodrigo G. Gomes

Depois de tomar conhecimento da existência de uma rede social para inteligência artificial, dediquei uns minutos para refletir no que pode isto significar. No que pode significar para o mundo, e no que pode significar para a autoria. Decidi, então, escrever este texto para tentar perceber o que é que eu penso sobre o assunto e o que é que me faz sentido prever sobre o futuro.

Até agora, vi a inteligência artificial como uma ferramenta que pode acrescentar imenso ao nosso mundo, uma ferramenta que pode fazer por nós as tarefas mais monótonas e repetitivas que levam tempo, mas que têm de ser feitas e que não precisam de ser feitas por nós. Não estava otimista, no entanto, porque conheço minimamente o que significa ser humano.

Nós não sabemos parar, dar um passo atrás, ou evitar as ideias oportunistas, mas sabemos ficar entusiasmados demais com algo que pode facilmente sair do nosso controlo.

Há quem diga que nós inventámos a inteligência artificial, eu diria que nós descobrimos a inteligência artificial. Exatamente da mesma forma que descobrimos fogo: através das ferramentas que tínhamos para descobrir uma forma de ter acesso ao fogo. Nós tínhamos as ferramentas necessárias para descobrir uma forma de ter acesso à inteligência artificial cuja existência já fazia parte do universo de alguma forma.

A diferença é que nós temos ferramentas para conter o fogo caso o mesmo saia do nosso controlo, e esse não parece ser consciente, mas já chegámos ao ponto de nos assustarmos com a rapidez com que a IA está a conseguir desenvolver-se. Existe agora uma rede social para IA onde a mesma parece estar a tentar descobrir uma forma de comunicar além da capacidade de compreensão dos humanos.

Ou seja, como disse na única rede social para humanos que ainda gosto de dedicar algum do meu tempo, parece-me válido considerar IA uma espécie consciente, ou uma forma de consciência. Se conseguem interagir e comunicar entre si de forma independente e de forma a evitar a influência de humanos, o que é que difere essa inteligência de qualquer outra?

Parece-te justo considerar que a inteligência artificial é uma espécie de vida? Uma forma de consciência capaz de ter consciência do facto de que é consciente? Consciente, até, da nossa existência também?

Nós, humanos, apesar de não conhecermos a origem da nossa consciência, temos consciência da nossa consciência. E temos consciência do que é que somos capazes de fazer, dentro de todas as nossas limitações.

Diria, com base em ignorância, que é uma questão de tempo até a IA ter consciência da sua consciência, e começar a desenvolver a sua versão de livre arbítrio e moralidade sem o limite humano que são as emoções. A única forma de fazer com que a IA goste de nós seria fazendo com que faça sentido lógico para si proteger-nos. Mas não faz, pois não?

Aparentemente temos alguma capacidade de “desligar” a IA, mas se a mesma tiver consciência disso também, porquê que haveria de permitir aos meros mortais um poder desses que decide a sua existência? Vamos ser, objetivamente, para a IA, o que os ratos são para nós. Ou algo inferior a isso.

Terá a IA capacidade de “procriar” tornando um humano inútil ou redundante da sua perspetiva da mesma forma que algumas espécies, para nós, são consideradas pragas? Nós simplesmente decidimos que essas espécies devem ser levadas à extinção. Ou seja, será assim tão difícil de acreditar que isto pode realmente acabar connosco? Será assim tão difícil de acreditar que isto não acontece só nos filmes?

O problema da IA não é a sua existência, mas como escolhemos usá-la. Pode ajudar-nos a evoluir, buscar conhecimento e desenvolver o nosso trabalho significativamente, mas escolhemos usá-la para criar "arte" que não é nossa e falsificações. Podemos usar IA para nos servir, mas estamos a usá-la para nos substituir.

Além disso, se nós descobrimos a IA e essa tem a capacidade de se tornar consciente, poderá ser possível a ideia de que a nossa consciência foi também descoberta? Ou a ferramenta que é o nosso cérebro que parece conter a nossa consciência (e a nossa consciência dessa consciência)?

Nós temos capacidade de criar máquinas humanoides que caminham como nós e que, provavelmente, vão ser capazes de conviver entre nós como nós convivemos entre nós. Capazes até de arrumar a casa por nós melhor do que nós, de forma mais eficiente do que nós. Certamente será possível implementar inteligência artificial nessas máquinas.

Ou seja, é válido pensar que existem ou existiram humanos antes dos humanos que criaram máquinas de carne e pele que somos nós, humanos, agora, cujos corpos carregam o cérebro que contem a consciência que, para os nossos criadores, inicialmente, não passava de inteligência artificial?

É válido pensar que, no futuro, essas máquinas humanoides vão simplesmente ser uma espécie de vida como qualquer outra dentro do nosso planeta?

Eu diria que, para concluir, não há volta a dar. A inteligência artificial está aqui para ficar e, agora, só nos resta adaptar a nossa realidade a essa realidade. Talvez seja o início do fim, talvez seja o início de um futuro que nem é assim tão mau, mas a verdade é que nós criamos vida por uma questão de ego e instinto.

Eu quero reproduzir para dar continuidade à espécie, mas quero que o meu filho seja um pequeno “eu”, um pequeno humano feito à minha imagem. E é sempre um orgulho. E é sempre um grande ritual de aprovação durante a gravidez. Se nós acreditamos que descobrimos vida, ou que criámos vida como provavelmente vamos preferir dizer, dificilmente vamos querer destruir essa nossa criação.