Ser leitor/a em Portugal
Rodrigo G. GomesO que é importante de lembrar é que autores e leitores fazem parte da mesma equipa, nós não estamos em confronto nem são os preços das livrarias que vão estabelecer o contrário como facto. Está claro que os lucros são a prioridade da maioria das livrarias e editoras, mas o que elas têm tendência de ignorar é que, sem autores, as mesmas não teriam lugar no mundo.
Um autor importa-se com um leitor, porque o livro que é lançado, é lançado para ser lido. Eu, enquanto autor, podia deixar os meus poemas e textos numa pasta privada que só eu tenho acesso, mas eu quero que o meu trabalho seja lido. Eu quero entregar esse trabalho ao mundo, bem ou mal, sendo útil para alguém ou passando despercebido, os meus livros são lançados por um motivo.

Exatamente da mesma forma que os leitores leem livros por um motivo. Talvez para aprender algo novo, processar emoções, conhecer outras experiências ou perspetivas de vida ou simplesmente desfrutar de uma história bem contada. É uma arte que faz parte de nós, e está provado que gente que lê é mais inteligente e gente que escreve parece encontrar um certo equilíbrio interno necessário.
O que os leitores não parecem entender é que os preços não dependem de uma simples escolha do autor. São estabelecidos pelas editoras tendo em conta o custo de produção de cada exemplar.
Reparei numa leitora que expressava frustração, algures no mundo virtual das redes sociais, quanto ao preço dos livros. Dizia que 20€ por um livro é demasiado caro. Isto é da perspetiva de uma leitora que vai a uma livraria comprar um livro, mas da perspetiva de um autor, o que acontece é que desses 20€: 10€ vão para a livraria, 10€ vão para a editora e 10% desses 10€ vão para o autor.
O que acontece é que eu, enquanto autor, não pago por um exemplar quando quero publicar um livro. Eu pago por dezenas de exemplares que, ao todo, têm um custo de mais de 500€. Esse é o custo de publicar um livro, na minha experiência. A lógica, aparentemente, é: eu (pre)ocupo-me com a despesa enquanto as livrarias e editoras ficam a maioria dos lucros. O que torna livros caros não é a produção dos livros em si, o que torna os livros caros é toda a gente que está entre os autores e os leitores.
Autores/as são, essencialmente, escravos. E vão continuar a ser escravos enquanto permitirmos que as editoras e livrarias governem este mundo.
O que me surpreende é que a maioria dos leitores não faz a menor ideia desta realidade, e acredito genuinamente que é através da transparência entre autores e leitores que criamos o poder para colocar as livrarias e editoras no seu lugar. É natural que se diga que um/a autor/a não consegue viver da escrita.
E, para deixar claro, o adversário da nossa equipa não são as livrarias e editoras: o adversário é a dependência de livrarias e editoras. Se o objetivo é devolver poder e valor aos leitores e leitoras, então o objetivo é remover a necessidade de controlo sob o qual os autores e autoras existem.
Sim, existem formas, especialmente com os avanços do mundo virtual e financeiro. Sim, um autor consegue viver do seu trabalho. É só que, agora, um autor precisa de ser capaz de fazer mais além de escrever, independentemente de editoras e livrarias. O que requer um maior esforço, mas que também merece mais mérito e reconhecimento.
É importante demonstrar apoio aos nossos autores e autoras em Portugal, incentivando-os também a criar uma plataforma própria para que não dependam inteiramente de livrarias e editoras. As livrarias podem continuar a trazer boas influências de fora de Portugal, mas aqui cabe aos nossos autores e autoras fazer o nosso trabalho sem depender necessariamente de editoras e livrarias. Mas, para isso, precisamos dos nossos leitores e leitoras.
Além disso, páginas dedicadas a livros nas redes sociais não merecem ganhar exemplares de graça enquanto leitores e leitoras pagam 20€ por exemplar. E também isso está nas mãos de quem lê.
Antigamente, “autor” era título de génios, gente inteligente com valor para entregar ao mundo. Agora, qualquer idiota consegue ser autor, desde que venda.
"Autor" costumava ser título de génio, e escrever era suficiente para partilhar ideias com o mundo. Agora, com todo o ruído, escrever não é suficiente, então um/a autor/a tem de conseguir desenvolver uma relação direta com os leitores e leitoras mais do que nunca.
É isso que é ser leitor/a atualmente. Apoiar, diretamente, os nossos escritores e escritoras em Portugal. Entender de que forma é que são explorados, e chegar à conclusão de que não precisamos necessariamente de livrarias para desfrutarmos do que é importante para nós.
Os autores e autoras estão tão preocupados com as livrarias e editoras que a relação com os leitores e leitoras, o que realmente importa, mantém-se negligenciada.