REFLEXO
Rodrigo G. GomesUma reflexão que ilumina a escuridão e expõe o que genuinamente existe dentro de quem está e esteve diante do espelho durante a minha transição de adolescente para jovem adulto. A sequela da minha querida "LÁPIDE" que reflete mudança ou evolução, o que é ser humano, introspeção, identidade e a busca por um lugar dentro do próprio eu.
É somente olhando para dentro que vemos o que nos magoa e o que vai eventualmente magoar quem mais amamos. O processo de criar e manter boas relações com outros começa por dentro, começa pelo próprio, quando temos tendência de acreditar que começa pelo outro. Esse processo responde à questão que tantas vezes evitamos: quem sou eu?
A “LÁPIDE” assustou algumas pessoas próximas, porque a morte aparentemente assusta a maioria. Compreensivelmente também porque a “LÁPIDE” consegue ser realmente depressiva. Eu queria fazer do “REFLEXO” algo completamente diferente, algo novo, experimentar e explorar, criar o oposto da “LÁPIDE”, o branco para o preto, e na mesma altura comecei a ler e a ficar intrigado e fascinado com o conceito de identidade, muito porque eu mesmo já andava em busca de uma (como todos nós) através da escrita.
Então, o “REFLEXO” tornou-se uma nova e melhor tentativa de introspeção, mas desta vez indo além do que eu já era. Eu queria explorar a ideia de identidade, de ser alguém ou de não ser ninguém, de ser humano, de ser igual e de ser diferente. Eu queria explorar a ideia de transição, mudança ou evolução. A ideia do “eu”.
O meu “REFLEXO” representa o próximo passo na exploração e descoberta do meu eu, em busca do que dá para melhorar e trabalhar ativamente para melhorar, mas acima de tudo aprender, descobrir e compreender o que me faz sentir e pensar, compreender-me enquanto humano. Descodificar o que faz de mim quem eu sou, sem a intenção de justificar os meus erros, mas com a intenção de aceitar esses erros pelo que são, pelo que representam, e fazer deles uma base para uma tão importante reinvenção.
Tornar-me melhor namorado, melhor amigo, melhor pessoa, melhor humano ainda que escolha ficar entre o preto e o branco, simplesmente uma melhor e mais equilibrada versão do Rodrigo. Quem sabe tornar-me o pai da Eva um dia.
Acredito que a melhor forma de alcançar esse objetivo é através dessa exploração de identidades que, no fundo, é o que todos nós fazemos de forma inconsciente. Todos nós criamos identidades: para conviver com pessoas de quem gostamos e para lidar com pessoas de quem não gostamos, para fazer o que gostamos de fazer e para encontrar uma forma de fazer o que não gostamos de fazer. A diferença aqui é que eu quero explorar identidades que representam diferentes rostos meus que, por sua vez, representam quem “eu” sou conscientemente.
O que é que eu valorizo? Em quê que acredito? Porquê que penso, sinto, ajo e reajo e sou desta forma? Que dificuldades sinto e o que é que é fácil para mim? E porquê? Genuinamente. O meu “eu” esconde-se dentro de questões como essas e é precisamente essa escuridão que a luz deve iluminar.
Porque a escuridão consegue facilmente criar uma falsa perceção de segurança que, verdadeiramente, é mais nociva do que segura. O objetivo não é livrar-me da escuridão, é encontrar um lugar entre ambos onde compreendo e aceito quem um dia fui, quem sou e quem serei. Chegar a um acordo com a escuridão onde diz que ela nada mais é do que parte de mim, não me define completamente.
Neste livro está muito bem representado o propósito da minha escrita, o propósito dos meus livros, o que eu tenho de valor para oferecer ao mundo: uma oportunidade de introspeção. Uma oportunidade para olharmos para dentro e vermos o que genuinamente existe dentro de cada um de nós enquanto pessoas e enquanto humanos.
Nós precisamos de conhecer e compreender quem nós verdadeiramente somos para sermos capazes de criar e manter melhores relações em vez de magoarmos e de sermos magoados. Nós magoamos, muitas vezes quem mais amamos, porque estamos magoados. Estarmos magoados faz com que magoemos outros que, por sua vez, magoam os próximos num ciclo de dor que provoca dor. Interromper esse ciclo começa por nós.
E eu estou a fazer isto porque eu mesmo preciso. Isto é algo pessoal que quero e estou a partilhar contigo. É um processo, um caminho que vou seguir por mim mesmo, eu quero ser capaz de ser mais vulnerável e menos miserável, e vou partilhar contigo as minhas experiências e convidar-te a fazer o mesmo.
Eu quero que a Eva, se ela algum dia existir, seja quem vai interromper de vez o ciclo de dor e abandono que já vem de gerações. Ou que, pelo menos, tenha uma oportunidade consciente de tentar como eu tentei.