3 questões que criam melhores relações
Rodrigo G. GomesDepois de 4 anos de isolamento, resultado de um término difícil de relacionamento, no qual fiquei confortável e indeciso, sem conseguir decidir se sequer queria ver ou estar com quem quer que fosse, reparei na minha dificuldade de lidar com pessoas e de criar relações saudáveis e construtivas com novos conhecidos.
Usei bem esse tempo, no entanto: aproveitei para estudar, ler, escrever, aprender sobre escrita e negócios. Claro, alguns momentos vazios de procrastinação, horas de lazer e uma guerra travada com o meu primeiro livro, mas a verdade é que eu fiquei demasiado confortável. Confortável ao ponto de ir longe demais.

Lembro-me de sair de casa, pela primeira vez em 2 meses, para ir simplesmente tomar um café na cidade e não conseguir entrar no estabelecimento. Lembro-me de atravessar a estrada, seguir pelo passeio e, à medida que me aproximava da porta, começar a sentir uma ansiedade parecida àquela que sentia quando tentava abordar alguém na rua. A única diferença, desta vez, é que se tratava de uma porta.
Uma porta de vidro que me refletia.
Tirei o telemóvel do bolso para fingir que tinha recebido uma chamada de forma a tentar justificar a minha súbita mudança de ideias quando já estava com a mão na maçaneta. Eu estava exageradamente autoconsciente, perdido dentro da minha própria cabeça.
Foi aí que percebi que tinha de fazer alguma coisa quanto a isso. Então, a primeira coisa que fiz foi entrar num ginásio. Estar em forma física, saudável, é sempre o melhor caminho para qualquer lugar. Lembro-me de ir a pé até lá para poder, simplesmente, cumprimentar pessoas na rua. E até isso era um desafio.
Para acrescentar aos meus projetos, depois de entrar num ginásio, decidi iniciar um trabalho de vendas, onde também conheci boa gente com quem tive excelentes conversas. Comecei a frequentar a biblioteca municipal da cidade por recomendação de uma dessas pessoas. Fui conhecendo, aos poucos e com alguma ansiedade, novas pessoas. Fui trabalhando e aprendendo, acrescentando sempre ao meu propósito.
Eu tenho tendência de aprender rápido, além de ser muito observador, comecei então a entender alguns padrões. E desses padrões surgiram 3 questões que podem servir de base para quem sente dificuldades a nível social.
Não me refiro a introversão, que pode ser um desafio, mas a única solução nesse caso é mesmo sair da zona de conforto de forma consistente. Também não me refiro às dificuldades criadas por algum tipo de distúrbio ou transtorno de saúde mental mais profundo, nem estou numa posição para poder, de forma responsável, referir-me a isso.
Refiro-me ao tipo de dificuldade que faz alguém viver em solidão, dentro de uma prisão criada pela própria mente que deu por si no fundo do poço, ou perdida demais dentro de si mesma, depois de alguma experiência de vida marcante e negativa.
Refiro-me ao tipo de dificuldade que faz alguém sentir que é humanamente incapaz de criar e manter relações construtivas, sejam relações de amizade ou amorosas. Refiro-me ao tipo de dificuldade que faz alguém aceitar relações tóxicas por falta de opções ou escolher relações tóxicas por parecer familiar.
O que é que gostas de fazer? Provavelmente consegues responder à primeira questão com facilidade. Por exemplo: eu sou autor, gosto de ler e de escrever.
Quais são os locais que podes frequentar onde existem pessoas com os mesmos gostos? Por exemplo: eu não saía de casa. Eu não frequentava lugar nenhum além do meu quarto. Este foi um passo extremamente importante para mim. Colocar-me numa posição onde tenho maior probabilidade de conhecer gente e de falar com pessoas que gostam de fazer aquilo que eu gosto de fazer.
Não significa que eu fui para lá com a única intenção de chatear toda a gente, o intuito era simplesmente colocar-me numa posição, ainda que desconfortável, onde podia sair da minha cabeça (ou, pelo menos, tentar). Algures onde a probabilidade de conhecer alguém era maior.
Agora, a questão mais importante. O que é que podes oferecer de valor a essas pessoas e o que é que essas pessoas podem oferecer de valor a ti? Não me refiro a coisas, a presentes, ou algo físico. Refiro-me a algo que te ajuda a crescer. Se as pessoas com quem convives só têm dúvidas, manipulação, chantagem, sexo, baixa autoestima, sedentarismo, ignorância ou dor para oferecer, vai-te embora.
Se tudo o que têm para oferecer é o que dá para pagar com dinheiro, então essas pessoas não têm nada de valor para oferecer.
Por exemplo: eu conheci um rapaz, no ginásio, da minha idade que passava, mais ou menos, pelas mesmas dificuldades que eu. Ele não conseguia abordar pessoas, especialmente mulheres, era algo que o deixava extremamente nervoso. Nós partilhámos as nossas experiências um com o outro, tentámos perceber o que é que nos fazia agir e reagir assim.
Quando eu comecei a conseguir desprender-me da introversão, saindo da minha zona de conforto completamente, e comecei a perceber padrões e a entender melhor o mundo e a entender-me melhor a mim mesmo, consegui oferecer-lhe algo de valor: ir com ele a lugares públicos e deixá-lo ver-me a falar com as pessoas, a interagir, sem medo nem hesitação, e incentivá-lo dessa maneira a ser capaz de fazer o mesmo.
Quando falo de algo valioso para oferecer a alguém, refiro-me a algo que vai acrescentar à vida da pessoa e ajudá-la a crescer de alguma forma. A nossa cultura das “lembranças” é para destruir, é inútil e desliga os holofotes que revelam o que existe na escuridão.
E esse valor tem de ser recíproco. A ideia é oferecer sem hesitação e sem esperar algo em troca, mas não é continuar presente quando já percebemos que o outro está só a receber com um sorriso na cara. Isso é manipulação. Tem de ser recíproco e essa reciprocidade tem de ser uma escolha de ambos. O equilíbrio está aí.
Nós, enquanto humanos, somos incapazes de verdadeiro altruísmo. Tudo o que fazemos tem de ter algum tipo de retorno, nem que seja uma massagem ao nosso ego quando oferecemos um presente a alguém, caso contrário não nos faz sentido. É a nossa natureza.
Temos sérias dificuldades quando se trata de simplesmente criarmos e mantermos uma relação saudável e construtiva, estamos constantemente a tentar ver o que é que dá para tirar dali para nós. O nosso maior desafio é arranjarmos forma de nos desprendermos disso e criar o hábito de desenvolver relações porque somos seres sociais em primeiro lugar. Qualquer relação duradoura parte daí.