A insegurança de publicar o primeiro livro

Rodrigo G. Gomes

Já tive o gosto de conhecer várias escritoras, mais do que escritores, e reparo no que impede a maioria dessas pessoas de publicar um livro. A insegurança de publicar o livro. Eu, enquanto autor que vê a autoria como um propósito de vida capaz de mudar o mundo, quero tentar ajudar. Então, deixa-me perguntar-te o seguinte:

Sentes insegurança no que diz respeito a publicares o teu primeiro livro?

Vamos tentar resolver isso então. Vou partilhar contigo, aqui, alguns pensamentos e reflexões com base na minha experiência de publicar o meu primeiro livro, e a forma como o meu segundo livro confirmou, para mim, o que eu precisava de acreditar (mas que não conseguia acreditar).

Aceita o facto de que nada que faças pela primeira vez vai ser bom.

É uma verdade objetiva. O teu primeiro poema não vai ser bom. O teu primeiro livro não vai ser bom. A tua primeira história, a tua primeira apresentação, o teu primeiro ano de negócios dentro do mundo da autoria… Nada vai ser bom.

O que nos faz acreditar que tem de ser bom não é sequer a nossa insegurança, é o nosso ego. O nosso orgulho. Nós não queremos ser julgados, não queremos que se riam de nós. Nós não queremos falhar. Não queremos ser a pessoa que falhou. É a perceção dos outros, mas acima de tudo, é a nossa perceção de nós mesmos que está em jogo quando tomamos a decisão de expor uma ideia.

O medo de sermos ridicularizados é o que nos faz ter a tendência de seguir a opinião da maioria.

A parte interessante dessa insegurança é que todos nós, seres de sensações, notamos, ainda que de forma subconsciente na maioria das vezes, a insegurança de outra pessoa. E o facto de seres confiante o suficiente para seres vulnerável quanto ao facto de teres alguma insegurança é o que, ironicamente, faz de ti alguém que expressa o oposto de insegurança.

Seres um livro aberto quanto a alguma insegurança tua é uma forma de confiança. Então, sê um livro aberto, de forma intencional e consciente, quanto a isso para que tenhas oportunidade de construir a partir daí. Construir quem tu és. Até porque o que realmente revela insegurança é tentares, à força, ser outra pessoa.

Até porque a verdade é que sermos inseguros, e decidirmos que nos vamos esconder, vai fazer precisamente o oposto de construir. Prejudica tudo na vida de uma pessoa: negócios, trabalho, relações, e alguém enquanto autor/a, porque a escrita dessa pessoa vem de um lugar de insegurança e vai para um lugar onde tenta agradar em vez de escrever como forma de expressão pessoal através de excelentes histórias contadas de forma sublime.

Portanto, tu tens de começar. Tens só de começar, criar alguma coisa que sirva de base para o teu futuro e melhor trabalho. Não há ninguém no mundo que tenha uma base para te oferecer, simplesmente porque só existe uma pessoa que és tu. Todos os outros só conseguem ser todos os outros. Só tu és capaz de ser quem tu és. E é o facto de seres tu que vai inspirar alguém a seguir, como alguém, antes de ti, conseguiu inspirar-te a ti.

Toda a gente lida com inseguranças. É só que, para ti, a maioria das pessoas parece conseguir esconder isso melhor do que tu. E a verdade é que, quando tens a capacidade de ser vulnerável quanto às tuas inseguranças, ironicamente, és tu quem revela o oposto de insegurança.

És tu quem vai crescer enquanto pessoa e ser capaz de, por exemplo, criar melhores relações pelo facto de seres a pessoa que está disposta a ser vulnerável, em vez de seres a pessoa que se esconde de toda a gente enquanto espera ter uma relação significativa em vez de uma relação baseada em superficialidade.

Não podemos ter tudo o que queremos da forma que nos é mais conveniente... Mas toda a gente expressa as suas inseguranças de forma implícita, e nós sentimos isso de formas que muitas vezes não dá sequer para explicar.

Então, como é que aceitamos o facto de que temos um caminho pela frente que começa, mas que não acaba, no nosso primeiro trabalho?

Vamos publicar o nosso trabalho independentemente do nosso medo de julgamento ou de fracasso. E entender que, independentemente de como a obra estiver, pode ser aperfeiçoada em próximas edições. O livro não vai ficar na primeira edição para sempre: eu retrabalhei todo o meu primeiro livro na terceira edição do mesmo. Corrigi erros, mudei a capa, tudo debaixo de uma grande camada desnecessária de ansiedade.

Calma.

Não está nada perdido, nem nunca esteve. Nós não criamos algo perfeito à primeira tentativa, nós criamos algo e depois aperfeiçoamos à medida que avançamos. É isso que é progresso. Publica primeiro, melhora o que der para melhorar depois sem te perderes nesse processo. Isso aconteceu comigo: entrei num ciclo obsessivo parvo ao tentar aperfeiçoar tudo, chegando, felizmente, ao ponto de entender que perfeição é insanidade.

Eu fiz isso (publicar primeiro e melhorar depois) sem perceber que era isso que estava a fazer com o meu primeiro livro. O meu segundo livro confirmou na minha cabeça que a obra precisa de existir em primeiro lugar, em vez de existir num limbo de aperfeiçoamento eterno que nunca é visto por ninguém por não ser publicado.

E o melhor de tudo é que, no início, ninguém quer saber. Ninguém se vai importar com o facto de teres publicado um livro. Amigos e família vão todos dar-te os parabéns, elogiar-te, lamber-te e esboçar grandes sorrisos ao perguntar-te qual é o título do livro e onde é que podem adquirir o livro. E tudo isso para, provavelmente, nunca adquirirem o livro.

O que pode desmotivar, ou pode parecer ser algo que te vai desmotivar, mas a verdade é que isso é excelente. Tens espaço para respirar, tens espaço para trabalhar, tens espaço para crescer, e tens espaço para entender que os críticos serão sempre aqueles que nunca terão a coragem de publicar o que quer que seja.

Ninguém quer saber, no início. Toda a gente vai querer saber quando as coisas estiverem a dar certo, porque toda a gente quer ser a pessoa que acreditou numa pessoa de sucesso desde o início. Serão sempre aqueles que fingem segurança enquanto se escondem da própria insegurança. Toda a gente é um crítico até chegar a hora de publicar algo.

E é, também, por esse motivo que…

…tens de te permitir continuar independentemente da sensação de desconforto.

Nós, humanos, somos ingratos. Somos mesquinhos. Somos uns cobardes, na verdade. Fugimos do desconforto enquanto nos faz comichão ver alguém que está disposto a enfrentar o desconforto para alcançar sucesso. Tu tens de ser a pessoa que está disposta a enfrentar o desconforto.

Tens de ser a pessoa que está disposta a atravessar o processo. Nós temos tendência de achar, lá no fundo, que merecemos sucesso só porque achamos que merecemos sucesso. Mas nós não somos bebés. Nós não temos de ter aquilo que queremos só porque fazemos uma birra. Nós temos de atravessar o processo de nos tornarmos a pessoa que precisamos de ser para alcançar esse sucesso.

É imaturo sermos preguiçosos e esperarmos que as coisas venham até nós como se fôssemos especiais. E isso é bom: significa que temos de trabalhar, e trabalhar é atravessar o processo, que é o que nos faz realmente merecer e alcançar o sucesso que queremos. É uma conquista. Tem de ser uma conquista. Não há outra maneira.

O meu site, por exemplo, o site em que estás agora, é um processo infinito: eu estou constantemente a melhorar detalhes, a tentar deixar o site mais bonito ou interessante, ou menos confuso. O aspeto dele agora não tem semelhança nenhuma com o aspeto que tinha no início. O meu site evoluiu, cresceu, comigo. E nunca vai parar de evoluir.

Os textos do blog, também, são um excelente exemplo: eu escrevo, faço uma revisão e publico. Sem pensar demais, vou fazendo mais algumas revisões ao longo da semana, e edito o que precisa de ser editado e faço as correções que precisam de ser feitas. Ou, até, acrescento um parágrafo se fizer sentido. O processo é uma constante.

O que silencia o ego é o esforço genuíno de seguir o que acreditamos, independentemente de emoções limitantes, e o caminho de criação que fazemos até alcançarmos os nossos objetivos que vão, consequentemente, entregar algo ao mundo feito por nós.

Algo que, bem ou mal, existe.

Tens de ser a pessoa que está disposta a expor-se, disposta a sentir o desconforto, porque é essa a única forma de crescer. Encontra conforto no desconforto, encontra conforto no facto de que sabes que estás a aprender, que é precisamente assim que nos tornamos bons no que fazemos. É impossível sermos bons desde o início. Alguém que é bom é alguém que se tornou bom, depois de ser mau.

E é, também, precisamente isto que nos permite alcançar um certo nível de humildade e gratidão: temos a nossa própria pele em jogo. Ninguém que tem a própria pele em jogo atira pedras, mas toda a gente que tem a pele em jogo importa-se o suficiente para servir um propósito apesar de tudo.

Então, para terminar, deixa-me perguntar-te o seguinte: sentes insegurança no que diz respeito a publicares o teu primeiro livro? Publica o livro independentemente da tua resposta. Podes aperfeiçoar depois, e assim tens uma base para construir o futuro da tua voz.

A tua ansiedade vai acalmar assim que vires que nada de horrível vai acontecer. E eu, entretanto, vou continuando a publicar coisas para me certificar de que, com base na minha própria experiência, consigo fazer do nosso sucesso algo que depende só de nós.

Envia-me um email e mostra-me o teu primeiro livro quando existir e estiver entregue ao mundo: rodrigo@sanguedelider.eu

Vou ficar à espera.